Em pecado... ...

Pecados plagiados desabam sem dono.
Suspiros desleais deram à costa.
A madrugada desperta sonâmbula
e nua.
Afaga o silêncio, embriagada de sombras.
Veste-se de névoa e recua.
Resiste.
Escandalosamente pura.
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Pecados plagiados desabam sem dono.
Suspiros desleais deram à costa.
A madrugada desperta sonâmbula
e nua.
Afaga o silêncio, embriagada de sombras.
Veste-se de névoa e recua.
Resiste.
Escandalosamente pura.

O silêncio não é inocente, produz ecos que não consigo ler.
Pessoas feitas como peças de lego que não encaixam.
Encaixo-me no dia de hoje.
Rejeito o café, mordo o pau de canela.
Diariamente finjo que caí, mas estou em pé!
Sanidade à beira do abismo, quero subir ao alto da montanha e soltar a noite.
Quero um encontro de amigos que ficam pela noite dentro, em pijama, a conversar e a beber chá.
Estou sozinha nessa pretensão. Paciência!
Lamento profundamente quem sabe como deve ser e depois não é.
Já não imagino uma mão a segurar a minha.
Ideia marginal como uma estrada.
O carteiro passa num aceno de quem já não entrega cartas de amor.
Peço um café curto e escaldado, sem açucar.
Fico parada, nesse intervalo, a ouvir-me respirar.
O carteiro passa e volta a acenar, digo-lhe adeus também…

Esperavas um sorriso. Não sobrou nenhum. Perderam o prazo de validade e a capacidade de se reproduzirem, devido à inércia a que foram submetidos. Sentimentos perdidos em forma de inventário. Eu sem mim dá menos, mesmo elevada ao infinito. Quero-me de volta à minha vidinha suportável, sem medo de uma recaída, porque sou pessimista e gosto. Ser prudente é uma coisa que me irrita. Quero registar emoções a débito, sem lembrar que já fui sólida. A transparência há muito que deixou de me incomodar, porque as garças não passeiam no jardim e a cadeira vazia denuncia uma ausência, conferindo-me a angústia de não saber porquê. Hoje dispo-me de ontem, o que me deixa infeliz duma forma extremamente feliz...

Num gosto infinito,
pelas areias mornas da praia,
corro, árida,
dos gestos que colapsam,
como gaivota desvairada
num efémero deserto de mim…
Sem oásis,
sem o teu nome,
sem final feliz
E eu, reinvento-me, viro-me do avesso,
Num ponto de partida,
Sem me deixar ir.
Como um hífen que liga os elementos das palavras compostas,
E sem resposta.
E eu, barco oscilante, (leia-se rompante)*
Em busca da luz de um farol,
Que me leve a bom porto,
Sã e a salvo de um passado convalescente...
E eu, vestida de branco, como uma noiva pura,
Vou deixando pegadas,
Como quem coloca uma mensagem dentro de uma garrafa
E a lança ao mar,
Na esperança que alguém a encontre, a leia, e lhe dê atenção.
* Sugestão do JAM

E eu

Aperto os sapatos em ritmo de adeus.
Parto em passo planado, com o sol em poente.
Reivindico uma gaivota como complemento de paisagem.
Só depois me afasto, sem carácter de urgência.
Vestida de preto, com salpicos de silêncio
e um apontamento a designar,
levo nas mãos acenos gastos
à força de tanto serem usados.
Remeto-as à inércia!
Pela primeira vez, não olho para trás num gesto póstumo.
Há "nós" e laços, há agora um projeto de consciência em ruína.
Atiro, como uma noiva, um ramo de crisântemos.
Lamento imenso se alguém o apanhou...
" Ela era poesia... ele, não sabia ler."
Imagem "Pinterest"
Era uma rua escura, inodora, daquelas ruas onde não acontece nada.
Do lado de lá de uma janela, alguém tocava uma balada. Sentei-me num degrau do prédio, como quem espera a chave para entrar. A melodia surgia como o lamento de alguém que queria ir muito para além de um encontro improvável.
Encostei-me à parede fria, fechei os olhos e imaginei uma sala despida de adornos. Apenas um piano. Alguém, no masculino, de feições indefinidas, sem carisma emocional, deixava as notas acontecerem, indiferente.
Foi aí que entrei na sala. Senti-me impotente e frágil, pálida como um fantasma que não morreu.
O abraço fez-se em passo de dança, num redopio lento de quem reconhece a presença e quer a todo o custo não a deixar fugir.
Tentei descobrir ali um atalho para a normalidade. O máximo que consegui foi um pensamento fatigado: Agora é tarde para querer sair daqui. Envolvida num abraço de náufraga, deixei-me afogar num barulho de cristais, com suspiros de cetim.
Voltei à rua. Deixei-o a arrumar a minha ausência. Não olhei para trás.
Abri os olhos. A parede continuava fria. A balada fora substituída por um ritmo mais descontraído.
A noite estava instalada. Rumei em direção à estação e fiquei no escuro, à espera do comboio seguinte...

A noite tem a cor que eu gosto,
tem fantasmas do meu tamanho.
Tem medos que adormecem
e me deixam dormir também.
Na hora do excesso permitido,
bailam pecados em meu redor.
Eu escondi-me muito pouco...
Fugaz mendiga das horas paradas,
ampliadas num suspiro qualquer.
Existem palavras soletradas,
esculpidas em pedra dura,
que não se cruzam.
No silêncio, não há palavras cruzadas.
Eu sei, e tu sabes.
Perto ou longe,
nunca seremos nós...
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